Psiquiatria

A psiquiatria é a especialidade médica que estuda a relação entre o funcionamento do cérebro e o comportamento e as emoções. Ela é anexa e cada vez mais trabalha em conjunto com as áreas da psicologia, terapia ocupacional e ciências humanas como antropologia, sociologia e outras. E como área médica procura especialmente dar conta de quando essa orquestra - cérebro, comportamento e emoções - não funciona adequadamente, causando sofrimento ao indivíduo e às pessoas ao seu redor.



Tempo para uma importante definição: o cérebro é um órgão especial, altamente diferenciado dos demais, porém ainda é um órgão, como rim, fígado, pulmão ou coração e, portanto, tem não apenas uma estrutura anatômica, mas também um funcionamento dito normal. Mesmo que não haja nenhuma região ou mapeamento funcional alterado que seja determinante de qualquer doença* psiquiátrica, sabemos que essas doenças se relacionam diretamente a um funcionamento anormal, posto que o cérebro é exatamente o centro das emoções e do comportamento.

Nas seguintes perguntas e comentários procuro retirar as duvidas mais comuns deste intrigante campo, assim como ajudar o leitor em suas curiosidades e angustias.



1) Como assim uma doença psiquiátrica? Será que eu estou doente?
2) Eu não acho que estou doente. Só estou muito angustiado, com dificuldade de lidar com algumas coisas.
3) Será que eu tenho fatores que podem me levar a ficar doente? Será que foi a minha criação?
4) Mensagem final..



1) Como assim uma doença psiquiátrica? Será que eu estou doente?

Por doença psiquiátrica estamos entendendo um desequilíbrio emocional e do funcionamento cerebral do individuo, consigo mesmo e com o próximo. Uma doença pode acometer um indivíduo qualquer. Qualquer um pode ter uma pneumonia, leucemia, artrite. É claro que existem fatores predisponentes, como imunidade baixa ou histórico familiar. Mas isso está muito longe de ser culpa do doente. Essa é uma primeira idéia que você deve tirar: você não tem culpa de estar doente. Não tem culpa de estar deprimido, ser bipolar, beber demais. As doenças mentais são doenças, algumas delas crônicas outras não, mas são doenças e, portanto, mais uma idéia que você deve deixar para trás: não são símbolos de fraqueza de personalidade ou fraqueza moral, de safadeza ou malandragem. Mas é claro que isso só pode ser encarado assim assumindo-se um importante elemento: só está doente o indivíduo que aceita que está doente, o indivíduo que aceita seu papel como doente. E esse papel tem um compromisso extremo e constante: agarrar com firmeza e caráter o tratamento.
Sim, porque não se pode se esconder atrás de qualquer doença seja ela física ou mental. A doença não altera o caráter do indivíduo. Muito menos deve servir de muleta para que o indivíduo procure satisfazer vontades profundas e muitas vezes destrutivas. E há que se tomar cuidado com algo muito importante!: o cérebro, como cede da nossa consciência, é capaz de fornecer a falsa impressão de que temos pleno controle e monitoramento de todos os nossos pensamentos e sentimentos sobre tudo e sobre todos. Isso é uma inverdade! Não temos esse tipo pleno de controle e consciência, apenas em parte. Não hesite, não perca tempo. Se você está percebendo que está ficando difícil, que tem certos pensamentos ou relações interpessoais que estão muito difíceis de lidar, de compreender, consulte um clínico, seja ele um psiquiatra, psicólogo ou ambos. Cuide de você mesmo com o carinho que você verdadeiramente merece. Ser independente é apenas um passo evolutivo. O seguinte é saber ser interdependente: com cada um assumindo com gana o seu papel e agindo em conjunto, vamos muito mais longe e mais rápido.



2) Eu não acho que estou doente. Só estou muito angustiado, com dificuldade de lidar com algumas coisas.

Claro que há pessoas em estado dito normal que poderiam se beneficiar de tratamento. São indivíduos não doentes, mas que sofrem com dificuldades emocionais, comportamentos ou em suas relações com outros indivíduos. Estes também podem beneficiar-se de um clínico das emoções, de forma a melhorá-las, traduzi-las. Nesses casos o psiquiatra pode entrar como psicoterapeuta (se tiver formação para tanto) ou pode ajudar o psicólogo com uma medicação, quando necessário, para diminuir algum sintoma, como ansiedade ou alteração de sono, a fim de facilitar, catalizar e aumentar a qualidade do tratamento prestado por aquele profissional.



3) Será que eu tinha tenho fatores que podem me levar a ficar doente? Será que foi a minha criação?

Essa é uma ótima pergunta, e muito importante. Mais do que nunca a literatura especializada vem mostrando como as doenças mentais (psiquiátricas) têm como etiologia (causa provável) a característica de serem multifatoriais. O que isso significa? Que existem fatores que por mais distantes que sejam quando vistos isoladamente, coexistem na maior parte dos indivíduos de forma que em alguns deles, por motivos ainda desconhecidos, inicia-se o que chamamos de doença psiquiátrica. Dessa forma pesa sim o fator hereditário, assim como pesam os fatores de criação, as primeiras relações de vida, em particular aquelas com nossos pais, a história de vida, os fatores sociais, o desenvolvimento, as relações interpessoais, entre outros tantos. No entanto, mais uma vez, não estamos de maneira alguma falando que existe um maior ou menor peso de um ou outro fator. Essa informação tampouco existe com real valor científico. O indivíduo adoece por uma conjunção de fatores e que, por mecanismos ainda desconhecidos, naquele indivíduo em específico desencadeia a doença mental.



4) Mensagem final.

Não hesite, cuide-se, cuide dos seus e do seu futuro investindo em você mesmo. Se a máquina parar, de que adianta o esforço de agora? Mais vale que saibamos andar um pouco mais devagar neste momento para nunca parar e quem sabe se até, mais forte do que imagina poder ser, você não será capaz de voar ainda mais alto no futuro? Talvez uma razão para nós, humanos, coexistirmos seja exatamente nos ajudarmos a voar cada vez mais alto. Dr. Bruno Antonio de Lima Nogueira – Medico Self Psicologia



BIBLIOGRAFIA

1. Manual Conciso de Psiquiatria Clínica – Kaplan & Sadock, 2ª.ed. Artmed, 2008
2. Tratado de Psiquiatria – Gelder, Mayou, Cowen, 4ª.ed. Guanabara Koogan, 2006
3. Neuroanatomia Funcional – Machado, Ângelo, 2ª ed.Atheneu
4. Introdução à Epidemiologia - Rouquayrol, Almeida Filho, 4ª ed. Guanabara Koogan, 2006
5. Comprehensive Guide to Interpersonal Psychotherapy – Weissman, Markowitz, Klerman, Basic Books, 2000
6. Psicoterapia Psicodinâmica de Longo Prazo – Gabbard, Artmed 2004
7. DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) – 4ª.ed. Artmed, 1994



*Faço a ressalva aos colegas da área de saúde mental que tomei a licença de generalizar o termo doença, sobrepondo-o aos mais bem aplicados termos, transtornos ou déficits entre outros, a fim de apelar ao entendimento leigo do termo doença. Creio que por meio do mesmo possamos formar uma compreensão maior para o publico dos fenômenos com os quais estamos lidando.

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